sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Da Saga Bis em Blantyre: Miss Manicure & Jovem Casal Suíço

Boa tarde,

Quando se achava que umas idazinhas a Blantyre não podiam render mais, eis que surge o terceiro (e último) episódio por terras malawianas. Curiosamente, também este incluiu um desafio com as autoridades.

Chegada a Blantyre, Mary dirige-se, pela segunda vez, ao Consulado moçambicano. Desta vez ia compostinha: calça, topzinho com mangas, casaco e ténizinhos. E quem encontrámos de pé ao lado da amiga da secretaria? A nossa Miss Manicure, também ela muito composta. Aliás, punha-me num chinelo, Quinta-feira deve ser dia de spa.

Miss Manicure: Dona Maria, este visto já não dá para prorrogar… Aliás, já nem deve usar este tipo de visto, tem de pedir uma autorização provincial, e isto e aquilo e ir ali a Vila Real de Sto. António para chegar à Damaia.
Mary (raios parta isto!!): *sorrisinho humilde*
Miss Manicure: Mandimba… curioso… aonde em Mandimba?
Mary (a sério? A sério que achas que alguém ia inventar que vive em Mandimba?): No Bairro da Chanica.
Miss Manicure: Não estou a ver. E eu faço muitas vezes aquela estrada.
Mary (gesticulando): Claro que não está a ver, é smalliiiii.
Miss Manicure: *GARGALHADA*
Mary: A sério, uma pessoa sai de Mandimba, “ah e tal vou procurar a Chanica” e pumbas, já passou!
Miss Manicure: *GARGALHADA*
Mary (será que isto chega para me safar?): Posso usar a sua casa-de-banho?
Miss Manicure: Com certeza.

Ok Mary, força, tu consegues! Aguenta que a moça há-de ceder. Goza mais “ca” Chanica. Faz qualquer coisa mulher. Pronto, e agora volta lá para elas não acharem que és (ainda mais) estranha. Voltei e tudo acabou bem, Mary sacou um vistinho. Boa tarde e obrigada.
Como eles têm Wi-Fi, deixei-me ficar mais um bocadinho no jardim a “apreciar as flores”…
Enter jovem casal de backpackers europeus.
Ela de manga à cava e havaianas, ele de calções. First timers, obviamente. Tadinhos, juro que tive pena, sobretudo porque vinham com ar de quem tinha andado duas horas (circunstância que confirmei dois minutos depois).
Mary: Queridinhos, vocês assim nem à porta chegam.
Jessica: A sério? Que chatice… Andámos duas horas para cá chegar.
Mary (called it!): Acredito, mas vão por mim…
Jessica: *blank*
Mary: Posso ajudar-te com casaco e ténis mas não tenho nada para o Zé Carlos.
Jessica: Não faz mal, ele pede umas calças ao jardineiro.
E assim foi, trocadas as roupas Mary deu por si com umas havaianas 37 nos pés (leia-se, com os calcanhares de fora) e o Zé Carlos estrelicadinho nas ditas calças do jardineiro. Múltiplos minutos depois, ressurge o casal bastante chateado com o atendimento. ‘Xem lá isso filhos, há coisas piores. Obrigados e até qualquer dia.
Cinco horas mais tarde, na fila para o ATM…
Mary frustradíssima por ter ficado presa em Blantyre por causa dum atraso de 10 minutos e ainda mais frustrada por estar incontactável. Passa casal de suíços. Dois minutos de conversa de circunstância. Casal segue para o SHOPRITE, pináculo do consumo em Blantyre, Mary avança uma casa na fila para o multibanco ainda bastante frustrada.
Dois minutos depois…
“Espera lá, aqueles tipos falaram num hot-spot na mochila…!” Próximo destino: SHOPRITE!
Mary entra no dito e busca casal suíço. Corredor do óleo…corredor das farinhas… corredor dos cereais… STOP!! Eis-li-os. “Desculpa lá ‘miga, posso usar a vossa net?” E assim foi, mais precisamente entre os Jungle Oats e os Cornflakes.

Até já.

domingo, 11 de outubro de 2015

Da Saga Bis em Blantyre: O Gajo das Alfândegas

Ok, zero visto mas necessidade de voltar para Mandimba… Mary pensa e decide arriscar: siga para Mandimba!

Chego ao posto de fronteira de Mandimba e vejo o chefe das Alfândegas com quem, curiosamente, tinha visto o Benfica-Porto. “Estou a pedir visto.”, diz a Mary. Risada geral derivados do uso de uma expressão local. “O chefe da Imigração há-de dar.”. Okay, desde que alguém mo dê até pode ser o jardineiro.

Enter chefe da Imigração. Pela carinha do moço vi logo que não ia ser um parto fácil. Arregaça a manga, sorriso de orelha a orelha e vamos a isto. Long story short, ao contrário do que me disseram no Consulado, não dão aquele tipo de vistos nas fronteiras e tive que vender o meu primogénito e lançar muito charme para conseguir um acordo – leia-se, não sair de Mandimba e voltar ao Malawi na Quarta para pedir novo visto.

Notem que o medo principal desta gente era que eu fugisse. Where the hell to people? Lá lhes garanti que o meu coração estava em Mandimba e que não ia a lado nenhum. Ok, vamos ajudar-te, mas isto não há cá almoços grátis:

Zé Carlos (mais vencido pelo cansaço que outra coisa): Ok, vou ajudar e você vai ter coração moçambicano.
Mary (say what now?): hmm.. não percebo bem..
Zé Carlos: Vou ajudar e você vai ter coração moçambicano.
Mary (ah sim, porque se repetires exactamente a mesma frase vou perceber): Mas o meu coração é português...

Zé Carlos lança sorriso matreiro e faz-se luz na cabecinha da Mary. O moço estava a referir-se à ajudinha dada às autoridades oficiais comummente designada por “refresco”. Ora bem, nesta altura já levava 2:37h de posto de fronteira, pelo que passei directamente ao “quanto é que queres?”. Aparentemente, isto é uma grave infracção diplomática mas o meu ar assertivo deve ter disfarçado a coisa e ele só respondia “você é que sabe, o coração é seu”. So not the time para este género. “Zé Carlos, o meu coração é e será português e eu estou cansada… Diz lá quanto é que queres e vamos aviar o assunto”. Nada. Insisti em vão. Chefe das Alfândegas dá lá uma ajudinha. Ok, sem problema. Chefe das Alfândegas chama o Zé Carlos e saca duma… wait for it… calculadora. A sério, uma calculadora? Vamos aplicar percentagens?

Depois de todo este cenário, lá chegámos a acordo e fui buscar o dinheiro para lhe dar. Tiro notas, dobro, dou-lhe. Ainda a pôr o dinheiro no bolso:

Zé Carlos: Onde é que estás a viver?
Mary: Na Chanica.
Zé Carlos: Que é que fazes nas horas de lazer?
Mary (seriously? O chulanço foi tipo warm up é?): Ah… depende… passeio… jogo bilhar… depende…
Zé Carlos: Próximo jogo de bilhar vamos juntos.
Mary: *blank*
Zé Carlos: Queres jantar?
Mary: *GARGALHADA*

O choque foi tal que nem consegui disfarçar. Que falta de noção. Pega no passaporte e foge dali.

Até já.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Da Saga Bis em Blantyre: Alcatrão & Manicure

Nestes últimos dias, fui duas vezes a Blantyre, no Malawi, e em ambas as duas tive vários episódios picantes com as autoridades nacionais.

Curiosa por saber o que me esperava naquela cidade de que se falava como se do céu se tratasse, lá rumei mais ao mê motorista Zé Carlos numa Quinta-feira de madrugada. Fronteira um, fronteira dois e vamos embora.

Dois segundos depois… ‘Pera aí, algo não está bem. Que é dos buracos? Que é do abrir e fechar janela cada vez que passa outro veículo? Espera… Isto é… Não pode… ALCATRÃO! Pronto, para mim está feito. Só não fiz a dança da vitória para fora por ter vergonha do Zé Carlos mas na minha cabeça estava em modo cheerleader, toda eu era histerismo! Quando Zé Carlos me informou que ia ser assim até Blantyre só me apeteceu dar-lhe uma beijoca. Mas, mais uma vez, probidade.

Prosseguimos. Chegámos e fomos imediatamente ao Consulado Moçambicano onde eu tinha mesmo que renovar o visto. Eis o que se passou:

Mary entra e dirige-se ao balcão onde Jessica a aguarda com um ar sério e importante.
Jessica: “Madam, do you have something to cover your shoulders?”
Mary: “Oh, I’m sorry. I didn’t kn...”
Jessica: “You have to cover your shoulders.”
Mary (já foste): “Of course, I’ll get something from the car.”

Mary aplica casaco de malha, reentra no Consulado e reaproxima-se de balcão.

Jessica: “Bom dia.”
Mary: (donde é que saiu esse português, ó bit..?) Bom dia. Precisava de renovar o meu visto, se faz favor.
Jessica (com aquele ar simpático dela): Hoje já não vai ser possível e amanhã é feriado. Só Segunda-feira.
Mary (rápido Mary, back-up strategy: GO!): Oh, mas é que eu vim de propósito de Mandimba e não posso ficar: tenho que ir amassar a xima para os miúdos!
Jessica: *gargalhada*
Mary (score, we’re in!): Está a ver, né? Preciso ir ajudar a minha cozinheira que aquilo é muita xima!
Jessica: Preencha este formulário que eu vou ligar à chefe.

Jessica regressa com a mesma cara. Chefe está com uma comitiva na cidade e não vai voltar, só Segunda-feira. Nesta frase por “comitiva” deve entender-se “fazer a unha” e por “cidade” deve entender-se “sítio onde se faz a unha”. Lixei-me mas ao menos a chefe gozou o feriado com uma unha que sim senhor.

Até já.

domingo, 4 de outubro de 2015

Nem com nome na guest me safei.

Mais de dois mesinhos sem escrever… Bonito, Maria, sim senhora. Falta de consideração pelas duas pessoas que aqui passam… Deve ser da vida social super activa em Mandimba!!

Segue então um pequeno episódio de Domingo passado.

Lembram-se daquela situação na Faculdade designada “chegaste atrasado tens que esperar à porta da sala de aula e entras em bando 10 minutos depois da hora quando a porta se abre uma segunda e última vez”? Aqui em Mandimba temos essa situação na Missa. Quem chega depois do Padre entrar, espera cá fora até os mocinhos das faixas “Acolhimento” darem ordem para entrar.

E quem é que foi barrada à entrada, quem foi?

Relembro que está um cafufo indescritível e que o Bairro da Chanica – onde resido – continua em festa o que dificulta o sono adequado. Saí de casa já atrasada e com o mínimo de roupa socialmente aceitável. Cheguei à porta do bunker mesmo a tempo de participar na seguinte cena:

Dois gajos “Acolhimento” nos degraus.
Mary na quarta fila dum grupo já grandinho de pessoas.
Gajo 1 faz vistoria geral ao grupo e, com ar angelical e de mãos ao peito, desce dois degraus e pede licença.
Grupo forma corredor até à quarta fila.
Gajo 1 (ainda com ar de Nossa Senhora das Dores): “Tem que pôr outra camisa.”
Mary: “Das outras três que trago na carteira…?”
Gajo 1: (Blank!)
Mary: “Eu não tenho outra camisa e esqueci-me do meu lenço.”
Gajo 1: “Então não pode entrar.”
Mary: (Também não queria entrar, calha bem!)

Mary senta-se, ligeiramente humilhada, no degrau à entrada. Sistema de som viste-o, de maneiras que ouvi sensivelmente 0.8% da Missinha.

Comecei a vistoria pelas moças que estavam cá fora para ver se sobrava uma capulanazita nalgum colo. Vejo moça a sorrir para mim… Conheço-te, não sei donde, mas toma lá todos os 32 dentinhos ‘cause I need what you’ve got! “Estou a pedir essa capulana.” Toma lá, põe aos ombros e entra no bunker que já estava a 45 graus. Comunga, devolve capulana. A não esquecer no próximo Domingo? Leque!

Finalmente, and cause you simply can’t make this stuff up: